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A pichação e os idiotas

 

A Rua e a calçada são públicas. E o lado de fora de meu muro? Pode ele sofrer alterações sem minha permissão? Hoje em nosso bairro, nos muros vemos inscrições ilegíveis, feias, aparentemente desprovidas de sentido, ao que chamamos de pichação. Um ato egocêntrico no qual o pichador quer que sua “marca” seja divulgada... Isso mesmo! Além de não ter nenhum tipo de engajamento a pichação segue as regras do jogo capitalista: o pichador quer se fazer conhecer por meio da marginalidade, ou seja, à margem do sistema que ele tenta imitar. No início do ano estive na Argentina e vi maravilhosas intervenções feitas com spray semelhantes às pichações, a diferença é que estas continham frases de cunho político, poemas marginais, ou apenas intervenções artísticas protestando contra as instituições argentinas. Isto fora os excepcionais grafites que nos arrebatam tamanho seu esplendor! Será que o fato do povo argentino ler muito mais que nós brasileiros tem a ver com isso? Precisamos saber discernir uma pichação egocêntrica de uma intervenção artística. Em nosso bairro temos pouquíssimos grafites nos muros, que, em minha opinião, são obras de arte, conseqüências saudáveis do cosmopolitismo e deveriam ser incentivados. Mas a prática da pichação para divulgar nomes de gangues e o apelido dos próprios pichadores é algo condenável por utilizar de um espaço público para interesses privados. E esta prática está cada vez mais crescente em nosso bairro, ao ponto de um condomínio na rua José Cleto oferecer cestas básicas às famílias carentes das proximidades a cada mês que o muro permanecer “limpo”. O espaço público deve ser usado para manifestações de cunho público. Usá-los para interesses pessoais é tão criminoso quanto um político que utiliza seu cargo para interesses próprios. Os gregos chamavam de idiota aquele cidadão que não se preocupava com a política. Etimologicamente a palavra idiota tem ligação com o termo “id”, ligado às pulsões e desejos de bens materiais e “ota” que em grego quer dizer casa, ou seja, aquele que ao invés de se preocupar com a polis (a cidade) só se preocupava com a sua casa (ota). Daí o sentido pejorativo dessa palavra entre nós hoje. Só podemos concluir uma coisa: Os pichadores são uns idiotas!

francesco napoli



Escrito por francesco às 14h29
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